UM CONTO DE NATAL
Era um 23 de dezembro. Entramos na favela, de carro, devagarzinho, um pouco receosas. Procurávamos crianças pra dar os brinquedos que a Paola havia separado, mas, as casas estavam todas cerradas. O lugar parecia estar fechado pra balanço.
Olhávamos pra dentro dos quintais pois, talvez ali, a gente encontrasse alguém. Às vezes tinha alguém, sim, mas parecia que não encontraríamos receptividade. "Não, aqui, não...", vamos adiante. Às vezes... uma criança de mão dada com a mãe: "Não, acho que não. Tão limpinha, arrumadinha... não parece carente.".
Ai, será que tem alguém pra quem a gente possa dar os brinquedos? (neste brasilzão de meu deus?).
Ruim sentir-se um "estranho no ninho", um intruso, um "peixe fora d'água"!!! Será que as crianças vão querer os brinquedos, mesmo? Será que são carentes? Será que não vão se ofender, a gente oferecendo um brinquedo, assim, sem mais nem menos? A sensação de dar uma de "Papai Noel" foi, a princípio, de muito desconforto.
Fomos indo mais pro interior da favela, pra onde as casas vão ficando cada vez mais pobrezinhas. "Ali, filha, ali... aquela menininha". Ela devia ter uns três aninhos, era loirinha, desgrenhada. Rostinho sujo, remelequento, ela estava sentadinha no chão, na esquina, brincando com a terra, sozinha. "Desce, Pa... Vai lá!". Peguei o primeiro brinquedo que me veio à mão e entreguei pra Paola dar pra menininha. Era um ursinho branco, achatadinho, com chapéu. A Paola se aproximou da menininha. Agachou-se pra chegar mais perto dela, olhando nos olhos... "Oi, você quer um brinquedinho?". A menina olhou pra cima, sem entender. Fitava a Paola, questionando-se. "Você quer o brinquedinho?", insistia a Paola, oferecendo o ursinho. E a menininha, sem entender e sem dizer palavra. "Pega!... é teu!". A menina tocou o brinquedo (tão branquinho que acredito que ela nunca havia visto algo tão alvo e limpinho assim antes, na vida), segurou e foi trazendo de mansinho, em câmera lenta, pra junto de si, ainda sem entender nada, quando, finalmente, espremeu o ursinho junto ao seu corpinho sujo: "É meu!".
Ai, deu certo: vamos continuar!!!
Ninguém, que estranho, dentro dos quintais. Parecia que tinha alguém... ali. Dava a ré. Olhava pra dentro. “Não, não dá. Acho que não”. Continuávamos, até que... "Ali, mãe, aquela menina, no quintal!". Desta vez, foi a Pa quem pegou o brinquedo, aleatoriamente: uma Minie. Foi até a cerca de madeirinhas pontiagudas. A menina nem se mexeu. Mas uma senhora, que parecia ser sua avó, veio até a Paola, meio ressabiada. A Paola: "Será que a menininha quer um brinquedo?", já oferecendo (e meio que pedindo, por favor, aceite). Os olhinhos da avó brilharam: "Ela quer, sim... ela quer, sim... Muito obrigada! Muito obrigada!". Ela pegou o brinquedo e entregou-o à menininha , que, levantando-se com entusiasmo, saiu toda serelepe, com o presentinho!!!
Ai... que legal!!! estava dando certo!! Tinha receptividade!
Os receios estavam minimizando. Temos que encontrar mais crianças, afinal, tínhamos, ainda, quatro sacos de cem litros atopetados de brinquedos (a maioria deles importados) pra dar. Passamos por uma esquina. "Ali, mãe... dois menininhos". Dei a ré e entrei. Só aí percebi que estávamos num beco sem saída, já na barranca do rio: "Ai, ai, ai, esqueci da nossa segurança. Fazer o quê??? Agora vai!".
O mesmo papo: "Oi, vocês querem..." Mas os meninos não demonstraram o menor titubeio. Já foram agarrando os brinquedos (homens, sempre tão seguros!!!) e já foram chamando mais crianças, alardeando: "Ei... brinquedos!!!"
Aí, começou a chegar criança. E a gente dava brinquedo! E mais criança... e dá-lhe brinquedo. Por um lado e pelo outro do carro. Eu de um lado, a Paola de outro, a estas alturas já impossibilitadas de abrir as portas. Era uma gritaria, uma festa, uma algazarra, mesmo!!! "Eu quero este!". "Eu quero aquele!". "Me dá!". "Me dá!". "Eu quero trocar. Me dá um de menino!!!". (os meninos... sempre sem o menor pudor). A maior zona!!!
"Pega mais lá no porta malas, Paola." . Ela força a saída do carro. Alvoroço!!! "Dá um pro meu irmãozinho!". "Olha... o meu vizinho já está vindo!!!". "Eu vou chamar meu primo... pera aí!". Que bagunça!!! E crianças chegando, mães, tias, e até tios! Temos que ir embora antes que acabem os brinquedos, pensei. Mas, antes: “Cadê o primo?"
Olhei pro lado... havia uma menininha com as mãozinhas agarradas no pouquinho de vidro que não abre da janela do carro. Ela era moreninha, de cabelo escuro liso, bem penteadinha e com a tez clara. Limpinha, olhos negros, amendoados: linda!!! Ela só olhava pra mim, mordendo as costas das próprias mãos, não dizia nada. Em meio àquela gritaria toda, ela só olhava pra mim, pedindo com os olhos, sem palavra. Ai, que linda!!! Ai, que linda!!! Escolhi um bichinho especial pra ela, que pegou o ursinho, virou de costas e saiu, quietinha, sem agradecer, mas, nem precisava, ela, certamente, estava muito agradecida. Linda, Linda!!
"Putz... essa pegou!!!".
Não, não... ela não vai me derrubar!!!
Mas, “cadê o primo?... Ah, ó, este é pra você". Cara, que função! Quanta criança!!! Brinquedos, brinquedos... De repente deu uma trégua de crianças, cada uma parecia estar entretida com o seu próprio presente. É... os brinquedos vão acabar acabando, pensei: "Chega, vamos embora, Pa!". Tudo assim, meio automático, sem pensar muito e sem sentir nada.
Dei a ré com cuidado e saímos do beco. Fora da bagunça, parei o carro pra respirar um pouquinho. Olhei pra Paola... ela deu um soluço travado! Foi muita emoção. Tinha que dar um tempo pra absorver um pouquinho.
Ainda distribuímos mais alguns brinquedos. Um brinquedinho aqui, outro acolá, só pra acabar o estoque.
E fomos embora da favela... agora com o carro vazio e a alma cheia!!
Sim, foi, sim, uma inesquecível festa de Natal, onde minha filha e eu recebemos os melhores presentes.
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